terça-feira, 25 de abril de 2017

O GRANDE DIA CHEGOU


INTER E TRANSDISCIPLINARIDADE - COMO TRABALHAR?



Não sabe se servir das ideias, quem não cultiva as palavras.
Olavo Bilac


Um convite. Um bom convite!

SER DE VISÃO – Volume 1, registra os tudo e os que ainda será de cada um, de escritores e de leitores. O texto escrito é somente do autor até o momento que o leitor se apropria das palavras para dar-lhes seu significado. De todas as emoções envolvidas na escrita dos textos, fica agora a sua interpretação, caro leitor. Essa é uma viagem individual e que, por isso, sempre vale a pena.

Convidados a escreverem, professores e alunos, desde o início do ano letivo de 2016, sabendo que as boas produções seriam registradas em uma obra impressa, os textos foram produzidos com liberdade temática, com liberdade de gênero, com liberdade! Para representar a primeira publicação impressa do Colégio Regina Pacis de Sinop, em Mato Grosso, essa foi a dinâmica: liberdade!

Dado o primeiro passo, daqui é seguir o caminho, sempre na direção do melhor. Do melhor para todos. Não poderia ser em um momento mais especial. Em 30 de janeiro de 2017 as Religiosas da Instrução Cristã marcaram 20 anos de presença em Sinop pautadas no carisma da congregação, dedicar-se e consagrar-se inteiramente à juventude, portanto, à instrução cristã de crianças e jovens sinopenses. Que essa publicação seja ‘um’ entre os demais elementos de registro desse importante momento para a Congregação e para Sinop, 20 anos de muito mais que educação, missão.

Pesquisando a trajetória Regina Pacis em Sinop, encontramos registros, no periódico ‘Somos Assim’, de poemas, na sessão ‘Antologia’ e na sessão ‘Pudim Literário’.  No periódico do mês de maio, ano de 2000, encontramos nada menos que a ‘Academia Regina de Letras’ com registro de manifestações como “[...] a leitura vai de vento em popa [...]” e textos de alunos desde o 1º ano do ensino fundamental. Pode-se dizer que foi a criação da Academia Regina de Letras, em maio de 2000. Nos periódicos seguintes ela aparecia como ‘Academia RL’. Depois, ‘Academia de Letras Regina Pacis’ ao lado da ‘Academia de Artes Regina Pacis’.  Percebe-se a intenção e a vontade de sistematizar, registrar e socializar produções literárias na instituição. Seguindo a pesquisa, percebemos com certa tristeza que a Academia Regina de Letras bem como a de Artes não apareceram mais em nenhum registro desde o ano de 2003. 

Quiçá quebrando o protocolo de uma apresentação literária e velemo-nos dessa voz, além de apresentar a obra SER DE VISÃO – Volume 1, provocamos o resgate de duas Academias do Regina Pacis: a Academia Regina Pacis de Letras e a Academia Rgina Pacis de Artes. Argumento? Palco vazio, todos podem ocupar. Vamos ocupá-lo com literatura e arte. O menino e a menina que se envolve com leitura e com arte tem uma visão de mundo muito mais humanizada, e por isso poderá ser um instrumento de paz com mais propriedade. Nas palavras de Silvio Luzardo, “O livro nas mãos de uma criança é uma extensão de sua inocência. Mas também um alimento que começa a ser saboreado para todo o sempre”.

SER DE VISÃO. Um conceito de significado plural. Aqui, diz que os registros são obras da inteligência, são produções, criações. E também pretende promover a apreensão da visão que transforma sonhos em realidade.   


Este volume I provoca a comunidade Regina Pacis de Sinop a fazer dele um instrumento de promoção da gestão de processos de estado e não de governo. Ou seja, passaremos, mas as Academias de Letras e de Artes permanecerão ativas produzindo, promovendo, vivendo. Que venha o volume II para o bem geral dos leitores!


Ousamos propor esse livro, fonte de prazer e conhecimento, como presente a amigos e familiares em ocasiões especiais e não especiais também, como um bom presente, contribuindo, assim, para a construção de uma cultura de cultura.

E, como bem disse alguém um dia que livro tem asas, sabemos que elas poderão levar esses escritos e desenhos para além mar, nos permitindo repetir e repetir:
Este é um convite. Um bom convite!

Boa leitura!


FUNDAMENTAÇÃO


O desenvolvimento de interesses e hábitos permanentes de leitura é um processo constante, que principia no lar, aperfeiçoa-se sistematicamente na escola
e continua pela vida afora.
 Bamberger

Reconhecer a importância da literatura e incentivar a formação do hábito de leitura são funções também da escola. Nesse sentido, a publicação de textos produzidos por alunos é um caminho motivador e que favorece à criança e ao adolescente o desenvolvimento da imaginação de forma prazerosa e significativa, bem como a manifestação de emoções e sentimentos.

O trabalho de ensino no âmbito conceitual de forma significativa está contemplado no projeto político pedagógico do Colégio Regina Pacis ao propor que “todas as atividades didáticas busquem favorecer a criatividade e a autonomia, considerando a criança e o adolescente agente ativo de seu próprio desenvolvimento”. Essa concepção está pautada na teoria de Vygotsky, que também fundamenta o fazer pedagógico no Colégio. (P.P.P. Pag. 05).

Ainda com base no projeto político pedagógico, esta publicação é uma ação que está no bojo dos pressupostos metodológicos do Colégio, porque se dá no

planejar, executar, avaliar e reavaliar as possibilidades, em sala de aula, para ensinar e aprender, considerando o processo, entre outros, como: [...]; alternativa de articulação da vida cidadã do aluno, no seu meio social; [...]; veículo para significar conteúdos sempre ligados em rede/espiral; maneira de o aluno em sala produzir, construir, montar, experimentar em lugar de reproduzir; [...]; meio de simbolizar e organizar seu mundo de modo lúdico; alternativa para que o aluno se sinta afetivamente parte do grupo social; experiência de ver, manipular, experimentar, verbalizar sobre coisas do mundo em sua volta, ampliando a vivência da sua linguagem e suas possibilidades mentais, colocando-o em um mundo complexo de relações que o provoca a organizá-las; [...]. (P.P.P. Pag. 06).

Desenho, pintura e literatura enquanto arte, também resgata no aluno seu “papel como agente crítico e transformador, comprometido com os aspectos sociais, políticos, culturais e econômicos e com o desenvolvimento local, regional e nacional, na sua forma de pensar, agir e expressar”. Bem como, possibilita ao aluno um “trabalho criador”. (P.P.P. Pag. 07).

 Não é novidade dizer da importância de ouvir e escrever histórias, do contato com o livro e do hábito de ler para a construção de sujeitos sociais críticos, responsáveis e atuantes na sociedade, onde as trocas sociais acontecem rapidamente, seja através da leitura, da escrita, da linguagem oral ou visual. E se a promoção da leitura e da escrita favorece o desenvolvimento gradativo do pensamento reflexivo e a consciência crítica em relação ao mundo, a literatura, segundo teorias da educação, é uma arte da linguagem e como qualquer arte exige uma iniciação.

Esta publicação, portanto, pretende contribuir para o exposto com o aval do projeto político pedagógico do Colégio quando propõe o atingimento dos objetivos:

- criar condições para que o aluno desenvolva sua competência comunicativa, discursiva, e sua capacidade de utilizar a língua de modo variado e adequado ao contexto, às diferentes situações e práticas sociais;
- ampliar e aperfeiçoar as possibilidades de expressão oral e escrita, fazendo com que os alunos reconheçam os procedimentos necessários para tanto, além de tornar-se consciente das intenções implícitas nos discursos cotidianos e aptos à tomada de posicionamento diante dos mesmos;
- reconhecer a norma culta da língua como meio de acesso a recursos de expressão e compreensão dos discursos e, com isso, enfrentar as contradições existentes na sociedade, bem como afirmar-se como sujeito individual inserido na coletividade;
- possibilitar o acesso às mais diversas variedades linguísticas, bem como aos mais diferentes textos que circulam nas esferas sociais;
- valorizar a experiência linguística do aluno, bem como sua interação social. (P.P.P. Pag. 41).
  
Como indicam também os PCNs, o fazer pedagógico no Colégio Regina Pacis possibilita aos alunos a participação de diversas práticas que envolvem a leitura e a escrita, o que contribui para sua formação, como já foi dito, enquanto cidadão. Por isso, adota uma postura que “privilegia a língua como algo vivo, que não está pronto e acabado”. Uma prática pautada no dizer de Bakhtin (2003) quando afirma que “o ensino da língua materna não se dissocia do discurso como prática social, perpassando, portanto, por diferentes vozes, que se ligam, por sua vez, a diversas ideologias em jogo nas diferentes esferas sociais”. (P.P.P. Pag. 42).  

Ao estimular jovens a produzirem obras supera-se o paradigma de que escrever e ilustrar um livro são tarefas exclusivamente para intelectuais, mostrando que crianças e jovens também tem recursos para passar para o papel suas criações. Respeitando a liberdade de expressão, professores forneceram aos autores deste livro referenciais que enriqueceram o repertório, trabalhando com muita leitura, com muita escrita e com muita ilustração. Uma forma de ensinar e de aprender linguagens construindo personagens, montando histórias, recontando histórias lidas, interpretando através de imagens, enfim, um ensino com significado e para a cidadania. Parafraseando Paulo Freire, “educar exige respeito à autonomia do ser do educando”.

Por outro lado, o livro impresso parece algo em extinção, visto que vivemos num contexto de tecnologias avançadas e, por isso, repleto de fontes possíveis e disponíveis. Para muitas pessoas, os impressos passam a não ter sentido na era da internet. Contudo, o contato com as páginas de um livro impresso continuará proporcionando singular prazer e encantamento, assim como as telas do cinema estão para os filmes em DVD ou pela internet. Essa concepção é para aquelas pessoas que acreditam que o livro, além de instruir, informar e ensinar, pode dar prazer.

Mais do que um colégio, a presença das Religiosas da Instrução Cristã na vida de crianças e jovens de Sinop, é uma missão. A missão de formar pessoas com excelência acadêmica e desenvolvimento de valores humanos pela vivência de virtudes éticas. O perfil do Colégio Regina Pacis é de formação integral para a cidadania.

Por isso, a função de cada disciplina aqui envolvida é mais do que a “formação de um leitor crítico”. O pressuposto é de um ensino com “função humanizadora”, como, por exemplo, a literatura, que “libera a imaginação, a fantasia, correspondendo a uma necessidade do homem. Ao mesmo tempo educa, ensina, traz conhecimento. Ela recria a realidade, mostrando seus aspectos positivos e negativos; supre uma necessidade humana e, ao mesmo tempo, tem uma função formadora”. (P.P.P. Pag. 43).



Leni Chiarello Ziliotto

Coordenação de Projetos
Colégio Regina Pacis
Sinop-MT


ALGUMAS IMAGENS INTERNAS DA OBRA









domingo, 9 de abril de 2017

CIRCULA MT – 2016


SELEÇÃO PÚBLICA DE PROJETOS CULTURAIS Nº 001/2016/SEC-MT
“CIRCULA MT – 2016”

RESULTADO DEFINITIVO DE AVALIAÇÃO TÉCNICA

A Comissão Permanente Técnica de Seleção inscritos nos Editais de seleção de projetos culturais promovidos pela Secretaria de Estado de Cultura de Mato Grosso, designada pela Portaria nº 097- 2016/SEC, publicada no Diário Oficial do Estado de Mato Grosso, no dia 28/06/2016, edição nº 26806, torna público o resultado definitivo da fase de Avaliação Técnica dos projetos habilitados na Seleção Pública nº 001/2016/SEC-MT, a saber:

ARTES VISUAIS INSCRIÇÃO
PROJETO
MUNICÍPIO
STATUS
On-783504660
MOSTRA FOTOGRÁFICA SANTOS PANTANEIROS
Cuiabá
SELECIONADO
On-105126470
SANTOS DA BAIXADA
Cuiabá
SELECIONADO
On-1074946279
OLHARES OCULTOS PAISAGENS PERCEPTÍVEIS
Ipiranga do Norte
SELECIONADO
On-1554076799
ENCAÚSTICA - A ARTE ECOLÓGICA EM CERA DE ABELHA
Rondonópolis
SELECIONADO
On-855389540
DESBRAVAR A TERRA E PROMOVER A VIDA
Sinop
SELECIONADO
On-496118508
AINDA HÁ TEMPO!?
Rondonópolis
SELECIONADO

Exposição 
DESBRAVAR A TERRA E PROMOVER A VIDA

Exposição de imagens construídas a partir de fotografias de sessenta e duas (62) mulheres pioneiras no município de Sinop/MT, bem como da história da Gleba Celeste e de dados técnicos da exposição.
A exposição acontecerá em espaço externo:
a)      Entono da Catedral e Fórum – Sinop/MT.
b)      Entorno do Centro Cultural de Vera/MT.
c)       Entorno da Praça Central de Cláudia/MT.
d)      Entorno da Praça Central de Santa Carmem/MT.

OBJETIVOS GERAIS
1.       Promover a cultura da cultura.
2.       Democratizar o acesso à arte, à cultura e à história da Gleba Celeste, estado do Mato Grosso.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS
1.       Promover o intercâmbio de ideias, experiências e artistas residentes nos municípios filhos do processo de colonização da Gleba Celeste em Mato Grosso.
2.        Incentivar a leitura e a formação de novos leitores de imagens.
3.       Oportunizar a ampliação e formação de novas plateias.
4.       Resgatar valores importantes à formação de sociedades humanas saudáveis.
5.       Contribuir com a construção de uma conjuntura de paz.
6.       Promover o olhar sobre o universo feminino de maneira a compreender sua contribuição nos processos sociais, culturais e econômicos das sociedades humanas.
7.       Motivar a apreciação da arte visual como uma das formas de expressão humana e de manifestação social.
8.       Expor em imagens o relato de vida de cinquenta (50) mulheres pioneiras no processo de colonização da Gleba Celeste em Mato Grosso, mais especificamente aquelas que se estabeleceram e atualmente ainda vivem em Sinop.

PROPONENTE – LENI CHIARELLO ZILIOTTO
SELEÇÃO PÚBLICA – CIRCULA MT
SEGMENTO – ARTES VISUAIS


domingo, 26 de março de 2017

CONSTRUIR O SENTIDO DA EXPERIÊNCIA




1. Filosofia para crianças e educar para o pensar
O professor Dr. Matthew Lipman, filósofo e educador norte-americano, criou o programa Filosofia para Crianças no fim da década de 60. Pioneiro em pensar a contribuição da filosofia para a formação integral das crianças, sua intuição foi aos poucos se constituindo em um novo paradigma de educação: uma prática reflexiva e investigativa (inquiry) em comunidade. Lipman se baseia em John Dewey e Lev Semenovitch Vygotsky que enfatizavam a necessidade de aprender a pensar e não apenas memorizar conteúdos. Incorpora contribuições de diversos psicólogos e filosóficos na estruturação de um projeto de ensino de filosofia.

Podemos acrescentar nesta lista nomes como George Herbert Mead, Charles Sanders Peirce, Jean William Fritz Piaget, Justus Buchler, Gilbert Ryle, Ludwig Joseph Johann Wittgenstein, Martin Mordechai Buber, Immanuel Kant, dentre outros.

Para Lipman há algo em comum entre as crianças e os filósofos: a capacidade de se maravilhar com o mundo. Os filósofos levam esta capacidade de maravilhamento às últimas consequências, descobrindo e investigando os problemas da existência humana. Tais problemas giram em torno de conceitos centrais, comuns e controversos em nossa existência. Dessa forma, os filósofos conseguem criar e construir conceitos e buscar formas de explicação.
  
Tais problemas giram em torno de conceitos centrais, comuns e controversos em nossa experiência. Desta forma, os filósofos conseguem criar e reconstruir conceitos e buscar formas de explicação mais abrangentes para os problemas da vida. As crianças ficam intrigadas com os mesmos conceitos problemáticos, ou seja, colocam-se questões sobre a verdade, as regras, a justiça, a realidade, a bondade, a amizade, etc. Necessitam, portanto, de uma educação filosófica para tratar destas questões e, simultaneamente, aprender os processos do raciocínio e do julgamento.

Filosofia para Crianças tem por objetivo introduzir de forma intencional e sistemática a investigação filosófica na formação das crianças desde os primeiros anos da educação formal e informal. Podemos dizer que a principal tarefa do professor é a de criar condições para que as crianças aprendam os conceitos de forma reflexiva e não mecânica, ainda que, algumas vezes, tenhamos de recorrer a exercícios para bem realizar este trabalho. Se a educação deve realizar a tarefa de aprender a usar a palavra para significar a experiência, então há uma dimensão filosófica em toda atividade docente. Fazer filosofia com as crianças é criar esta prática de pensar, um ambiente onde o questionamento da criança sobre conceitos comuns, centrais, controversos e problemáticos da experiência infantil possam ser adequadamente investigados e não simplesmente respondidos com “verdades absolutas” ditadas pela experiência do adulto.

O pressuposto deste paradigma educacional é o de que a educação deve começar onde está a criança e não onde está o professor. Trata-se, antes de mais nada de respeitar a dignidade da criança, um ser ativo, presente, brincante, pensante, portador e produtor de saberes. Trata-se de garantir o direito à liberdade de pensar, de escolher, de agir e de se expressar.

De acordo com o que já dissemos, fazer filosofia é uma necessidade humana básica para poder lidar de maneira inteligente com os desafios e conflitos da vida da criança e não menos na vida do professor ou de quem ouse abandonar o comodismo dos conceitos prontos ou a rotina que leva a mesmice. Se estas reflexões estiverem corretas, a força do amor implícita na palavra filosofia deveria encorajar todos a se envolver numa luta pela democratização do acesso à filosofia em todas as idades, em todos os momentos da educação que se proponha formadora das pessoas, em todos os espaços da vida, independente de concordar ou não com um caminho para esse objetivo que é Filosofia para Crianças.

Lipman propõe um uma pedagogia para fazer filosofia que é a Comunidade de Investigação. Esta pedagogia se fundamenta no diálogo e na inquirição. Ele criou também histórias e materiais para auxílio do aluno e do professor. As novelas filosóficas, histórias para as crianças, e livros do professor têm por objetivo tornar os conceitos acessíveis para a experiência do filosofar. Lipman é explícito em dizer que estes materiais são apenas uma alternativa, uma forma reunir e sistematizar diversos aspectos que tornariam possível o filosofar com as crianças. Ele defende a importância de criar outras formas de fazer filosofia com crianças.

Assim, com a pedagogia da Comunidade de Investigação e os referidos materiais, Lipman busca “dramatizar” a filosofia para que o encantamento das crianças com as questões filosóficas seja alimentando, permitindo fortalecer as capacidades de pensar e ampliando a sensibilidade para as outras dimensões filosóficas da experiência. E o pensar para ele é multidimensional, ou seja, é crítico, criativo e cuidadoso. Lipman coloca duas ideias regulativas deste paradigma reflexivo: a razoabilidade como propriedade pessoal e a democracia como propriedade social. A Investigação dialógica em comunidade constitui a base para construir a cidadania numa prática democrática. Se falamos em “construir” é porque todos estes conceitos são provisórios e devem ser submetidos constantemente à reflexão inteligente e imaginativa.


2. Educação do pensamento – aprimorar a capacidade de pensar
Filosofia para Crianças propõe que os conceitos e problemas sejam investigados utilizando-se das habilidades de pensamento (habilidades de raciocínio, investigação, interpretação e conceituação) e das habilidades sociais, estas ligadas à empatia, descentralização e agir com base a regras estabelecidas em comum. As habilidades são capacidades que permitem um pensar bem sobre os conceitos. O melhor ambiente para aprender a pensar é a pedagogia da Comunidade de Investigação. Aprender a pensar por si mesmo sobre o próprio pensar é uma forma de investigação filosófica que emprega a lógica para um pensar crítico, a dimensão estética para um pensar criativo e a dimensão ética para um pensar cuidadoso. O pensar multidimensional – crítico, criativo e cuidadoso – está ancorado no campo filosófico. A pedagogia para o aprender a pensar bem é o diálogo investigativo em comunidade. O mesmo processo pode ser ampliado para as outras práticas pedagógicas nas diversas áreas do conhecimento. Pensar é uma atividade holística e a filosofia contribui com uma perspectiva interdisciplinar.
Filosofia para Crianças propõe que os conceitos e problemas sejam investigados utilizando-se das habilidades de pensamento (habilidades de raciocínio, investigação, interpretação e conceituação) e das habilidades sociais. As habilidades são capacidades adquiridas pela experiência que permitem um pensar bem sobre os conceitos e problemas. Pensar bem tem as características de ser autônomo, reflexivo, crítico, criativo, cuidadoso, autocorretivo. Estas capacidades orientam os procedimentos que a inteligência deve tomar em determinada situação problemática. Portanto, são procedimentos inteligentes desenvolvidos através da prática, avaliados e reconhecidos como recursos, instrumentos ou ferramentas do pensamento para construir o conhecimento. São recursos, instrumentos ou ferramentas que permitem nosso pensamento ampliar o conjunto de conceitos e formas de resolver problemas. As habilidades estão em constante processo de aprimoramento á medida em que são empregadas no processo reflexivo ou investigativo. Elas são constituidoras da inteligência humana.
Lipman criou uma classificação de habilidades em quatro grupos:
a) Habilidades de raciocínio: inferir, comparar, identificar semelhanças e diferenças, contrastar, dar razões, definir, aplicar critérios, detectar pressupostos, ambiguidades, contradições, etc. 
b) Habilidades de investigação: observar, problematizar, formar hipóteses, verificar, provar, mesurar, descrever, sintetizar, concluir, etc.
c) Habilidades de formação de conceitos: estabelecer relações de parte-todo / meio-fim / causa-consequências, definir, generalizar, etc.
d) Habilidades de interpretação ou tradução: parafrasear, narrar, descrever, interpretar, perceber implicações, criticar, etc.

As habilidades sociais dizem respeito às capacidades de trabalho com o outro na comunidade. Elas estão ligadas à empatia, à forma de lidar com as próprias emoções, à descentralização e ao agir com base em regras estabelecidas em comum.

O melhor ambiente para desenvolver as habilidades e aprender a pensar é a pedagogia da Comunidade de Investigação. Aprender a pensar por si mesmo sobre o próprio pensar é uma forma de investigação filosófica que emprega a lógica para um pensar crítico, a dimensão estética para um pensar criativo e a dimensão ética para um pensar cuidadoso. O pensar multidimensional – crítico, criativo e cuidadoso – está ancorado no campo filosófico. A pedagogia para o aprender a pensar bem é o diálogo investigativo em comunidade. O mesmo processo pode ser ampliado para as práticas pedagógicas nas outras áreas do conhecimento. A filosofia contribui com uma perspectiva interdisciplinar, buscando um pensar holístico sobre a experiência.

3. Educação ética e política – formação de valores e exercício da cidadania e democracia

A criança aprende, desde muito cedo, a valorar e a perceber as implicações políticas de seu ser e agir no mundo. Ela ainda não tem estas noções tematizadas, ou abstraídas nestes conceitos, mas são capazes de percebê-las. Ela se comove diante da injustiça, do sofrimento e de toda forma de barbárie do mundo globalizado: pobreza, degradação ambiental, violência, fome, abandono, etc. Elas ficam indignadas diante das injustiças.

As crianças vivem diariamente os conflitos e contradições de um mudo que propõe o consumismo e o prazer imediato. Elas questionam estes fatos e querem saber as razões que levam o ser humano a agir desta forma. Elas se interessam em buscar saídas para estes desafios. Se a realidade é desafiadora ética e politicamente, ela é também esperançosa para uma educação voltada para a formação do sujeito moral e político de forma livre, autônoma e crítica. 

Filosofia para Crianças é uma forma de investigação ética sobre os valores, permitindo a construção da identidade de forma livre e responsável. Não é, portanto, uma prática moralizante em que valores, normas e leis são incutidas para serem seguidos como verdades absolutas. O diálogo que se estabelece no processo coletivo de construção de uma Comunidade de Investigação toma os significados dos valores do universo cultural e os submete à reflexão.

A própria Comunidade de Investigação já constitui um paradigma de vivência de valores éticos: o respeito mútuo, a cooperação, a solidariedade, a justiça, a empatia e tolerância diante das diferenças, o cuidado pelo outro, a confiança entre os membros, a esperança nas capacidades humanas.

O ser ético é o que leva em conta o outro no processo de valorar e de agir. A vivência destes valores na comunidade de investigação pode alimentar a continuidade de sua experiência nos relacionamentos em uma sociedade multicultural. Este é o sentido ético-pedagógico deste paradigma filosófico-educacional.

Filosofia para Crianças incentiva e busca desenvolver as capacidades da criança de pensar sobre os valores éticos e torná-los guias para a ação humana. A vida democrática é a que oferece as melhores oportunidades para o crescimento moral e o exercício da liberdade de pensar, expressar e escolher. Quando a criança começa a filosofar – o diálogo investigativo sobre a linguagem que usamos para dar significados ao mundo – está exercitando sua cidadania. Nestas condições, a criança é um ser ético e cidadão, é um sujeito que existe ao mesmo tempo “em si” e “para si.” Ela é protagonista de sua experiência.

Não se trata de um conceito de cidadania fechado, mas aberto à investigação dos sentidos pela própria comunidade. Ser cidadão no mundo atual exige o desenvolvimento da capacidade de pensar e agir de forma crítica, criteriosa, ética, estética levando em conta a justiça e o bem comum. Daí que o exercício da cidadania passa necessariamente pela investigação rigorosa, participativa e pública dos significados e referências da comunidade, constituindo-se uma prática do filosofar ético e político. Neste sentido podemos afirmar que filosofia para crianças tem uma clara política da e para a infância. 

Cidadania é muito mais do que reivindicação de direitos e cumprimento de deveres é um paradigma de conhecimento e de vida democrática alicerçado no diálogo e na investigação. As crianças têm muito interesse e gosto de participar deste processo e é nele que descobrem suas potencialidades e as colocam para o serviço da comunidade toda. Elas adquirem um senso de valor de si mesmas e da comunidade que se traduz no aumento da autoestima. A autoestima tem pelo menos duas dimensões: uma cognitiva e outra afetiva. Por um lado a autoconsciência de que é capaz de que se é capaz de pensar, julgar e autocorrigir-se; por outro lado o sentimento de confiança em si mesmo e nos outros capaz de respeitar e ser respeitado, amar e ser amado. Neste sentido, a autoestima significa ganhar poder na autodeterminação do próprio destino e no destino do mundo.

Responder às perguntas “que pessoa quero ser?” e “em que mundo quero viver?” considerando as condições individuais, sociais e culturais é um desafio diário, já que não são perguntas com respostas acabadas. É um esforço na direção da busca da vida boa e feliz.


http://www.philosletera.org.br



FILOSOFIA PARA CRIANÇAS



Criador do movimento de Filosofia para Criança e professor emérito da Montclais State Universiti nasceu 24 de agosto de 1923 em Vineland, Nova Jersey, e faleceu em 26 de dezembro de 2010, West Orange, Nova Jersey.
Serviu na infantaria dos EUA de 43 a 46 na França e na Alemanha ajudando a libertar os campos de concentração.

Estudou em Stanford, Columbia, na Sorbonne, em Paris, e na Universidade da Áustria, obtendo seu Ph.D. em Filosofia pela Universidade de Columbia em 1954.

Tornou-se professor de Filosofia da Universidade de Columbia, no Sarah Lawrence College e no City College de Nova Yorkem 1950 e 1960.
Suas experiências no ensino de filosofia para os estudantes universitários de educação de adultos, e o fato de ter testemunhado a turbulência política que ocorreu nos campi universitários de todo o país na década de 60 o convenceram de que aprender a pensar criticamente, inquirir sobre questões filosóficas e formar julgamentos razoáveis devem começar muito mais cedo na formação dos estudantes.

Em 1969, com apoio do National Enfowment for the Humanities, começou a escreversua primeira novela filosófica para crianças, Harry Stottlemeier Discovery, traduzido para o Brasil (A descoberta de Ari dos Telles), que foi testada em escolas públicas em Montclair, Nova Jersey.

Em 1972, deixou a Universidade de Columbia para ir para Montclair State College para desenvolver suas ideias sobre o que veio a ser conhecido como “Filosofia para Crianças”.

Em 1974, fundou o Institute for the Advancement of Philosophy for Children (IAOC) (Instituto para o Avanço da Filosofia para Criança), com a co-fundadora Ann Margaret Sharp, e nas três décadas seguintes tornou-se um líder nacional e mundial no campo do pensamento crítico e na área da filosofia pré-universitária e da reforma educacional.

Filosofia para Crianças se tornou o movimento em nível nacional, com workshops organizados em cada estado, através da difusão da Rede nacional do Departamento de Educação. O movimento também se espalhou pelo mundo, com as organizações locais e nacionais em mais de quarenta países e associações regionais na Europa, América Latina e  Australia.

O programa, Currículo das Novelas Filosóficas, foi traduzido para dezenas de idiomas e, em 1985, foi fundado o International Council for Philosophical Inquiry with Children (ICPIC) (Conselho Nacional para a Investigação Filosófica com Crianças) em Copenhagen.

Sua carreira acadêmica envolve cursos de formação em filosofia e educação, escritas no primeiro currículo sistemático do mundo da filosofia pré-universitária, a criação de programas de mestrado e doutorado em Filosofia para Crianças, a realização de pesquisa empírica sobre o pensamento das crianças e sobre a investigação filosófica, fundação da revista Thinking, a realização de conferências e workshops de desenvolvimento profissional, aquisição de bolsas de pesquisa, e a escrita de dezenas de livros e artigos científicos.

Aposentou-se da Montclair State, em 2001, mas manteve-se um estudioso ativo, publicando inúmeros artigos e entrevistas, e escrever a sua autobiografia, que foi publicada em 2008.

Em 1952 casou-se com Wynona Moore (1932-1999), a primeira mulher Africana_Americana a ser eleita para o Senado de Nova Jersey (1971) e membro mais antigo do Senado no momento de sua morte. Tiveram dois filhos, Will, que morreu em 1984, e Karen, que vive em Geórgia. Em 1974, casou com Theresa Smith, que faleceu em 2009.


Joe Oyler – www.montclair.edu/iapc